Regras Sociais – Social Rules in China

Today we are publishing a guest post written in Portuguese by Christine Marote, a Brazilian expatriate residing in China for many years. In this post Chris teaches us two very important social rules in China, and why you should be aware of them if you plan to go or live in China

Eça de Queiroz, em seu livro ‘O Mandarim’, descreve de forma caricata os chineses, através de seu personagem Teodoro: “Amor dos cerimoniais meticulosos, o respeito burocrático das fórmulas, uma ponta de ceticismo letrado e também um abjeto terror do imperador, o ódio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o gosto das coisas açucaradas”.

E por mais bagunçada e aparentemente desorganizada que pareça essa sociedade, as regras sociais, hierárquicas e a ‘etiqueta’ são extremamente valorizadas e cobradas, mesmo dos estrangeiros que caem de ‘pára-quedas’ pelas terras de Confúcio.
Sim, ele é o grande responsável por todas essas minuciosas e, algumas vezes, estranhas regras de comportamento em grupo. Isso vale para a vida social, em família e principalmente no ambiente de trabalho e nos contatos profissionais.

Mas são tantas pequenas coisas e tantos ‘senões’ que até hoje, depois de quase 11 anos por aqui, cometemos gafes e aprendemos regras novas. Mas existem algumas que são básicas e extremamente comprometedoras para quem não as segue a risca. E aqui cometer a gafe social é muito mais do que a situação constrangedora do momento e depois ter que escutar as piadinhas dos colegas que presenciaram o fato.

Aqui, ultrapassar a linha é motivo para perder milhões, caso o contato seja profissional, ou ter o desprezo daquela pessoa pelo resto da sua existência. Isso se ainda ele não tentar uma ‘vingança’ para compensar o constrangimento que passou.
E quais são essas regras radicais?

A primeiríssima, de goleada, é o ‘não perder a face’. Que seria, em tradução literal, não passar vergonha na frente dos outros, não ser questionado, nem colocado em situações que o deixem humilhado. Ou seja, você pode ‘acabar’ com seu funcionário, mas jamais na frente de testemunhas.

humilhar

E aí entendi por que é tão difícil receber uma resposta direta desse povo. Aqui se você pergunta ao motorista: ‘você sabe chegar ao endereço x?’, a resposta será: ‘chegaremos lá’. No começo não levava isso em conta, mas comecei a reparar que sempre que a resposta era nessa linha, podia me preparar para ficar horas dentro do carro. Mas ele jamais vai assumir que não sabe um endereço da cidade se ele é motorista, isso o faria ‘perder a face’ frente ao patrão ou ao passageiro no caso de motoristas de taxi. E esse exemplo é o mais simples e corriqueiro que poderia dar.

No ano passado quando estava procurando casa, havíamos gostado de duas. Mas não podíamos fazer a proposta ao mesmo tempo, até porque existia a predileta! Depois de uns 3 dias que entregamos a primeira, fui perguntar ao corretor o que havia sido decidido, se a dona havia aceito nossa proposta. Ele me respondeu que ela estava analisando os pontos fracos. Quase uma semana depois, eu já não agüentava mais e falei: dá para dizer sim ou não. Simples, direto, sem rodeios. Quero saber se ela vai alugar a casa ou não. Depois de meia hora, em ‘ahams’, ‘ehems’ e ‘uhums’, ele me olha (acho que já percebendo que eu estava à ponto de um ‘chinocídio’) e diz: bem parece que ela está insatisfeita. Meu Deus!!! Mas notem que o ‘não’ não foi dito.

E aí vem a segunda pérola: ‘não criticar ninguém’, na realidade deve ser para a recíproca ser verdadeira. Não critico, não sou criticado e acabaram os problemas. Então se você está numa roda de amigos e um colega fala um absurdo para seu ponto de vista, mude de assunto, olhe para o lado, assobie ou vá tomar um copo de água (quente) na cozinha. Mas criticar e fazer o colega perder a face na frente do grupo, vai fazer com que você de caçador vire a caça, se é que vocês me entendem.

criticas

Deu para notar porque o ‘não perder a face’ é o primeiro dos primeiros? Na realidade ele é a base de todas as outras regras.

Mas isso fica para o próximo, porque já escrevi demais!

Zái Jián! 🙂