Papelzinho que conta história…

This is a guest post in Portuguese by Christine Marote, a Brazilian expatriate residing in China. This post tells an amusing story she experienced in a typical Chinese restaurant shortly after moving to China, and how she created her personal menu.

Papelzinho que conta história…

Nesses últimos 20 dias, tenho tentado organizar meu escritório, um quartinho só para chamar de meu, cheio de prateleiras e todas as minhas bagunças prediletas: papel, caneta, livros, bloquinhos, fotos dos amigos, etc, etc, etc. Bom, mas sabe como é… papel parece praga, piscou o olho tem pilhas e pilhas. E ontem, numa das faxinas nas pastas e caixas que estão fechadas há muito tempo, descobri um papelzinho que me fez parar tudo (entenderam porque fazem 20 dias e ainda não terminei?uiii) e relembrar o nosso primeiro ano em Shanghai. Aí resolvi contar para vocês, porque essa história retrata bem a vida de quem mora na China de verdade (Shanghai não é a China real, lembram?).

Em 2009 quando chegamos aqui, fomos morar num condomínio lindo chamado Hampton Woods em Song Jian. Até ai tudo certo, porque para nós era só mais um bairro de Shanghai, um pouco distante do centro. Afinal alugamos a casa virtualmente, já que o Mário veio sozinho e quando conheceu esse condomínio se apaixonou. Mesmo longe, haviam 2 colegas de trabalho que moravam ali. Pensamos então: se eles vão para o escritório em Honqiao todos os dias, beleza. Lugar lindo, casa maravilhosa, amigos no condomínio. Perfeito! Ou quase…

Eis que chegamos aqui e realmente tudo que vi nas fotos era verdade, jardins, casa, lago. E resolvi sair para reconhecer o bairro, afinal não conhecia Shanghai, pois quando estávamos em Chang Chun, fazíamos a rota São Paulo/Beijing/Chang Chun, e haviam me dito que aqui era diferente, tudo moderno, primeiro mundo (ou quase…). Ai lá vou eu pelas ruas de Song Jian, que nessa altura já havia descoberto que é um distrito de Shanghai e na realidade nós morávamos no bairro de Xinqiao. Mas para meu espanto, não vi pelas redondezas nada que me remetesse às fotos de Shanghai, à cidade tecnológica, o coração pulsante da China, a cabeça do Dragão… muito pelo contrário, naquele momento o local me pareceu muito pior que Chang Chun (imaginem meu desespero, porque dessa vez ainda tinha 3 adolescentes comigo), o cheiro, as pessoas nos olhando na rua, nenhum ocidental que se pudesse ao menos trocar um olhar cúmplice. Ai meu Deus! Cadê aquela cidade que me falaram????

Descobrimos em poucos dias que a Shanghai que tinhamos referência, estava logo alí a 28 kilometros da nossa linda casa. Um percurso de aproximadamente 20 minutos pela estrada… de madrugada, claro. Porque durante o dia isso nos consumia cerca de 1:30 a 2 horas se saíssemos no horário certo. Ou seja, não morávamos em Shanghai, concordam? Mas a casa era linda, o condominio delicioso e acabamos fazendo um monte de amigos e, apesar de quase todos terem mudado de Hampton Woods, continuamos nos encontrando regularmente, é minha turma ‘torre de babel’, e fomos ficando.

Para vocês terem uma ideia nem Mc Donald’s havia no bairro. No supermercado só dava para comprar frutas e verduras, refrigerantes e material de limpeza. Se esquecesse de comprar pão na cidade, não dava para ir ali no mercadinho da esquina. Realmente a vida de Chang Chun era um pouco mais confortável. Delivery, nem pensar… saia do raio de 20 quilômetros do anel viário da cidade de Shanghai. Tínhamos preguiça de sair à noite, porque era uma viagem, e por isso acabamos nos cotizando e cada sábado a ‘festa’ era na casa de um dos amigos dentro do condomínio. No começo foi muito bom, mas chega uma hora que não dá. Todo mundo se cansa. Juntou com as crianças crescendo, querendo sair e tudo era muito complicado. Nada se fazia sem gastar pelo menos 3 horas, quando se dava sorte no trânsito. Por isso saimos de lá.

Abrimos mão do conforto e da beleza da casa de Hampton Woods, por uma casa menor, ou melhor, mais velha, com menos facilidades, mas no coração do Dragão! E não nos arrependemos, porque a casa não nos leva para passear, não tem preocupação com filho voltando de madrugada, nem sabe driblar o trânsito maluco de Shanghai.

Mas tudo isso por causa do tal papelzinho… então vamos à ele: um belo dia um casal alemão chegou no condomínio e nos disse que havia aberto um restaurante novo na nossa rua (chinês, claro), mas limpo (dentro do que se pode chamar de limpeza nesse caso) e uma comida boa. E falaram: agora já dá até para brincar de sair no sábado a noite… Claro que fomos lá experimentar.

Chegamos, sentamos, a mocinha traz o cardápio… todo em mandarim. E agora? Ela não entendia uma palavra sequer de inglês, não tinhamos internet no telefone, nem nada que nos fizesse abrir um canal de comunicação. Eis que o dono do local, muito esperto, foi catar um freguês que sabia falar ao menos algumas palavras na língua dos laowai (estrangeiros). Restaurante chinês, sábado 8 da noite, já está quase fechando. Então imaginem o estado etílico do sujeito. Mas ele nos ajudou, falamos que queríamos arroz frito, camarão, carne, verdura, o básico da comida chinesa. E ele falou para a chinesinha e nossa comida veio, até que muito boa mesmo. E o melhor: a conta também veio com o valor de 47 remembie! Naquela época era aproximadamente 12 reais. Um jantar por 47 remembie é barato demais. Aí veio a questão: e se a gente não tiver quem nos ajude da próxima vez?

Mais que depressa, a luzinha acendeu e pedi para a mocinha pegar papel e caneta. Aí apontei para o camarão e pedi para ela escrever (se estão perguntando como, foi na mímica mesmo e nem tão simples como parece…). Ela escreveu e eu rapidamente escrevi o nome ao lado. Apontei o legumes, e ela começou a rir, chamou o patrão, adorou a ideia. Daí para frente foi fácil, ela escrevia, apontava e me dava o papel para eu escrever ao lado. Criamos o nosso menu pessoal, e geramos o tal papelzinho que encontrei nos meus guardados e que mostro aqui em baixo.

O mais engraçado, foi que no dia seguinte, claro, tínhamos que contar nossa aventura aos vizinhos. E todos se empolgaram e foi um tal de copiar a listinha e distribuir, até que o administração nos pediu a foto e enviou para todo o condomínio. Eureka!!! Bom, vocês podem imaginar a situação daí para frente… Entrávamos no restaurante o chinês vinha com o cardápio, sacávamos nosso papelzinho, ele ria e trazia os pratos. Um dia esqueci o papel… caramba, como vamos pedir… Quando dissemos que o papel ‘meyòu’ (acabou, não tem), ele disse ‘méi wèntí’ (não tem problema) e em 5 minutos apareceu com nosso cardápio fumegando. Também, acho que era só entrar um estrangeiro lá que ele já devia gritar: “sai os pratos dessa gente esquisita que come sempre a mesma coisa…”

Bom, no final de um ano dessa maratona dos moradores de Hampton Woods (era o único condomínio com estrangeiros ali no bairro), ele achou melhor fazer um cardápio bilíngue! Só que logo depois disso, em dezembro de 2010, mudamos para a civilização!

Mas mesmo com toda a distância, as dificuldades que enfrentamos, foi uma época muito interessante da nossa vida chinesa. Fizemos amigos de verdade, pudemos mostrar às crianças o que é viver na China real, e ficamos muito mais unidos. Acho que se pudesse ou tivesse que voltar atrás, faria tudo igualzinho. A experiência valeu! =]

Zài Jiàn!

 

 

About the Author:

After Christine Marote spent 4 years traveling between Brazil and China (Chang Chun, Jilin Province), Christine decided to move to Shanghai in January of 2009. In 2010 she decided to create a blog and share her experiences as a Brazilian expat living in China, and soon her blog became a source of information for foreigners and expats like her that have decided to live in China.

Her blog ‘China na Minha Vida’ describes Christine’s experiences, language challenges, cultural differences and curiosities, and the rich and diverse culture of China in an interesting way. Christine is Brazilian, holds a degree in Education, and a Masters in Chinese Business and Culture from Jiaotong University.